03 março, 2014

Comédia bizarra

Um anjo que não sabe voar
Uma ilha de solidão em meio a multidão
A poesia não mora mais lá
Os pés não sabem mais andar
Saudades de ver o mar,
Havia oferendas para Yemanjá
O anjo não sabe mais rezar
Os espinhos nas mãos das flores que não há
Como era bom o gosto do mar
Hoje chora, implora
Quer a vida que não teve de volta
Sonha e não consegue dormir
O anjo, na sua imortalidade, pede para morrer
E abrem-se as cortinas da vida real
E o palco gira
E o cenário desaba
A vida acaba
E o anjo está lá (quer correr)
Se afoga no mar
E ainda assim não para de respirar
Aí vem outra cortina
Outro cenário
Outros atores (Deus, onde estás?!)
E os mesmos personagens
O autor enlouqueceu
Viu o que fez do anjo e na angústia morreu
O anjo se perde no vento
Perde o pensamento
Não sabe mais onde está
Não quer respirar
Fecha os olhos e só pensa em voar
Voar, voar, voar...
Até as asas quebrar
E o peito espocar
Mas onde estão as asas?
O anjo as perdeu em algum lugar
Entre uma sexta feira de 89 e o último domingo
Talvez tenham caído no mar
Corroídas pelo sal, sei lá
E o anjo não vive mais, vegeta
Olha ao redor e nada se move
Vê o mundo através de um quadro
Velho, sujo, rasgado
O anjo sorri
Tenta entender porque tudo é assim
Porque os cenários vem e vão, desabam e se remontam, autômatos, girando frenéticos contidos na mesma gaiola.
O anjo é um pássaro
Que não voa, que não canta
Que não é belo
O anjo é uma história que não foi escrita
É uma vida que não foi vivida
De alguém que nunca existiu
É qualquer coisa que nunca chegará a ser nada
Nem sequer é anjo
Porque ele não acredita que anjos existam.

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