Um
anjo que não sabe voar
Uma
ilha de solidão em meio a multidão
A
poesia não mora mais lá
Os
pés não sabem mais andar
Saudades
de ver o mar,
Havia oferendas para Yemanjá
O
anjo não sabe mais rezar
Os
espinhos nas mãos das flores que não há
Como
era bom o gosto do mar
Hoje
chora, implora
Quer
a vida que não teve de volta
Sonha
e não consegue dormir
O
anjo, na sua imortalidade, pede para morrer
E
abrem-se as cortinas da vida real
E
o palco gira
E
o cenário desaba
A
vida acaba
E
o anjo está lá (quer correr)
Se
afoga no mar
E
ainda assim não para de respirar
Aí
vem outra cortina
Outro
cenário
Outros
atores (Deus, onde estás?!)
E
os mesmos personagens
O
autor enlouqueceu
Viu
o que fez do anjo e na angústia morreu
O
anjo se perde no vento
Perde
o pensamento
Não
sabe mais onde está
Não
quer respirar
Fecha
os olhos e só pensa em voar
Voar,
voar, voar...
Até
as asas quebrar
E
o peito espocar
Mas
onde estão as asas?
O
anjo as perdeu em algum lugar
Entre
uma sexta feira de 89 e o último domingo
Talvez
tenham caído no mar
Corroídas
pelo sal, sei lá
E
o anjo não vive mais, vegeta
Olha
ao redor e nada se move
Vê
o mundo através de um quadro
Velho,
sujo, rasgado
O
anjo sorri
Tenta
entender porque tudo é assim
Porque
os cenários vem e vão, desabam e se remontam, autômatos, girando frenéticos
contidos na mesma gaiola.
O
anjo é um pássaro
Que
não voa, que não canta
Que
não é belo
O
anjo é uma história que não foi escrita
É
uma vida que não foi vivida
De
alguém que nunca existiu
É
qualquer coisa que nunca chegará a ser nada
Nem
sequer é anjo
Porque
ele não acredita que anjos existam.

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