08 março, 2012

Fechado para demolição


"Este bálsamo não cura cicatrizes,
Esta musiquinha não faz apaixonar,
Este rosário de contas infelizes,
Cala mais do que diz,
Mas diz a verdade.

Este armazém de lençóis que não ardem,
Este telefone sem secretária eletrônica,
Ligarei pra ela amanhã, hoje já é tarde,
Esta forma tão covarde
De não dizermos que não.

Este contigo, este sem ti tão amargo,
Este relógio de areia do areal,
Esta greve de beijos, este letargo,
Estas calças tão largas
Para um velho Peter Pan.

Esta cômoda sem as calcinhas de Zara,
Um tour pelo Soho em um ônibus vermelho,
Estes olhos que não medem nem comparam,
Nem se esquecem da tua cara, nem se lembram da tua cruz.

Não abuse de minha inspiração,
Não acuse ao meu coração,
Tão maltratado e usado
Que está fechado para demolição.

Pelas rugas da minha voz,
Se filtra a desolação,
De saber que estes são os últimos versos que te escrevo.
Para dizer ‘com Deus’ a nós dois sobram os motivos.

Este bandolim tão longe do seu cigano,
Este presídio do porto sem vis a vis,
Esta guerra civil, este mano a mano,
Estes Mouros e Cristãos,
Este muro de Berlim.

Este vírus que não morre e nem nos mata,
Esta amnésia no céu da boca,
A limusine do pó por Manhattan,
O inverno em Mar del Plata,
Os versos do capitão.

Este envelhecer sem delicadeza,
Estas costas molhadas de moscatel,
Este vale de fábricas de tristeza,
Esta espuma de certeza,
Esta colmeia sem mel.

Este borrão de sangue e de tinta chinesa,
Este banheiro sem rímel nem Nembutal*,
Estes ossos que voltam do escritório,
Dentro de um terno
Com manchas de solidão.

Não abuse de minha inspiração,
Não acuse ao meu coração,
Tão maltratado e usado
Que está fechado para demolição.

Pelas rugas da minha voz
Se filtra a desolação
De saber que estes são os últimos versos que te escrevo.
Para dizer ‘com Deus’ a nós dois sobram os motivos."

*Nembutal: sedativo muito usado para cometer suicídio.

Estes versos não são meus, mas faço questão de colocá-los aqui pois são do maior poeta de meu coração.
Eu acredito na música como a forma mais pura de poesia popular, e este poeta é um músico espanhol, chamado Joaquín Sabina.
Do original em castellano, traduzido por mim. Cerrado Por Derribo é o título da canção.
Com voz única, sorriso lindo e humor louvável, Joaquín Sabina canta os versos por mim hoje.
Procurem, escutem, entendam, vivam a música de Sabina.
Ninguém se arrependerá!

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